segunda-feira, 19 de outubro de 2009

À Margem de algum rio




Desde miúdo que Pedro brincava ali, junto ao rio. Na margem ora verde ora
castanha, tinha aprendido quase tudo o que sabia. Entre os calhaus e as ervas
daninhas, Pedro encontrava a liberdade que em casa nunca conseguia ter. Ali não
havia horários nem regras. A única regra que Pedro impunha a si mesmo era de,
enquanto ali estivesse, a sua cabeça não pensasse em outra coisa que não fosse
as brincadeiras que inventava naquele pedaço de terra. Raramente se aproximava
do rio. Sentia por aquelas águas um respeito enorme, só comparável ao que
sentia pelos seus pais. Gostava de ficar sentado a olhar para o rio, afastado o
bastante para que não houvesse qualquer hipótese de cair dentro dele. Não com
medo de se afogar, já que o seu pai, aquando das suas férias de Verão o ensinou
a nadar numa praia com águas mais agitadas do que as que corriam naquele leito.
Era aquele rio, aqueles seixos, aquelas algas. Tudo aquilo o fascinava ao ponto
de se esquecer das horas de voltar para casa. Sua mãe, temerosa como todas as
mães, manifestava a sua preocupação à professora, na esperança de que esta lhe
dissesse o porquê de tão estranho e solitário passatempo. A professora, com a
experiência de mais de vinte anos a lidar com crianças, assegurou que apenas se
tratava de uma fase passageira na infância de Pedro.
Os anos passaram-se, Pedro cresceu, formou-se em biologia numa conceituada
universidade onde conheceu a mulher com quem haveria de casar.
Á medida que ia envelhecendo, Pedro continuava apaixonado pela Natureza e tudo
o que a ela dizia respeito. Além de dar aulas, investigava as espécies animais
em vias de extinção, na esperança de descobrir uma forma de impedir o seu
desaparecimento. Participava em manifestações de grupos ambientalistas em
defesa de causas perdidas.
No dia da sua morte, alguém perguntou ao Pedro o porquê da sua paixão por tudo
aquilo porque tinha lutado toda a vida.- Porque sei que se a vida é um rio, nós não passamos de margens por onde avida passa à nossa procura.

uma homenagem, bem merecida, a meu querido amigo e companheiro,já falecido... Vitor Gomes.


Cumprimentos
Fredyribeiro Writer

Um comentário:

  1. Sim... a vida é como a água do rio, passa a correr... por isso agarra-a, contempla-a e sê feliz, mesmo que seja só por alguns momentos.
    FREDY

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